Milhares de pentecostais se reúnem anualmente em Camboriú (SC) para o Congresso dos Gideões, um dos eventos religiosos de maior influência no país. É dali que saem pregações replicadas em púlpitos Brasil afora, e pastores lotam suas agendas nacionais. Na noite de sábado (2), no entanto, a pastora Helena Raquel subiu ao palco e escolheu um dos textos mais brutais e silenciados da Bíblia para inaugurar sua fala: Juízes 19, o relato de uma mulher anônima, vítima de estupro coletivo, morta e esquartejada por um levita que a entregou à multidão.
Para a colunista Bruna Santini, que escreve sobre o tema na Folha, a escolha não foi casual nem meramente exegética. Foi uma ruptura com a negligência bíblica que evita passagens desconfortáveis. Segundo Santini, é muito mais cômodo pregar sobre pastos verdejantes e vitórias pós-provações do que encarar líderes religiosos que, como no livro, deveriam proteger o rebanho e — ao contrário — praticam e acobertam atrocidades.
A saúde espiritual de uma nação, escreve ela, mede-se pela maneira como trata suas mulheres e crianças. “É incoerente chamar de ‘nação cristã’ aquela que encobre sistematicamente casos de pedofilia, violência doméstica e abuso sexual.”
O Que Helena Disse — e Por Que Isso Incomoda Tanto
No centro da análise de Bruna Santini está a constatação de que Helena não apenas pregou um texto difícil, mas o direcionou à própria plateia predominante do congresso: os líderes religiosos. Segundo a colunista, a pastora confrontou, com reverência e autoridade típicas do pentecostalismo, práticas endêmicas de acobertamento institucional, como a realocação de pastores abusadores para outras igrejas “para a poeira baixar”.
Criticou a desigualdade na cobrança entre homens e mulheres — submissão feminina cobrada, heroísmo masculino ausente — e o corporativismo religioso que protege líderes por seus títulos e não por seu caráter.
Santini destaca que a fala de Helena é fruto de décadas de trabalho pastoral de escuta e acolhimento a vítimas. Ela cita falas contundentes que, na visão da colunista, demonstram conhecimento profundo da realidade local:
“Pai que aterroriza filho em nome da fé, arrancando página da Bíblia, amassando e colocando na boca da criança, existe — e nós sabemos”. Para Santini, essa granularidade não vem de um discurso externo, mas de vivência pastoral.
Enfrentamento Teológico: “Pedófilo Não é Ungido”
Um dos pontos mais elogiados por Bruna Santini é a forma como Helena ataca as distorções bíblicas usadas para acobertar abusadores. Em seu consultório jurídico e teológico, Santini afirma que o principal desafio é desmontar a instrumentalização das Escrituras.
A doutrina do “ungido” — que usa o versículo “Ai daquele que toca nos ungidos” como blindagem espiritual — é enfrentada de dentro por Helena: “Pedófilo não é ungido. Pedófilo é criminoso”. Ela pede que a igreja pare de chamar abusadores de “irmãos” ou “pastores”, pois “não existe unção que justifique abuso”.
Helena também rompe com outro ensino distorcido e comum, segundo Bruna Santini: a ideia de que permanecer em casamentos abusivos seria um sinal virtuoso de perdão. Em sua pregação, a pastora encoraja mulheres vítimas de violência doméstica a orarem por si mesmas primeiro, a buscarem uma delegacia e a denunciarem seus agressores, em vez de aceitar pedidos de desculpas ou esperar que “Jesus salve” o abusador.
O Grito Silenciado: “Respira e Liga 100”
O momento mais chocante da pregação, relata Bruna Santini, foi quando Helena olhou diretamente para a câmera e se dirigiu a crianças: “Se tem alguém tocando no seu corpinho… Respira e liga 100”, enquanto o Disque 100 surgia no telão atrás dela. Para a colunista, a imagem sintetiza a coragem de levar um alerta de proteção infantil para um palco de milhares de líderes religiosos — muitos dos quais, historicamente, preferem lidar com o tema nos bastidores para evitar escândalos.
Os gritos de “aleluia” no ginásio, no entanto, não se repetiram nas redes sociais. Santini observa que, apesar de viralizar com parabenizações, a pregação de Helena também gerou um padrão previsível de reação contrária.
Comentários a acusam de ser uma “feminista infiltrada”, e sua própria ordenação como pastora é questionada — já que muitas igrejas evangélicas não reconhecem o título feminino. “Quando o argumento não pode ser refutado, ataca-se quem o faz”, escreve a colunista, que reconhece o mecanismo desde quando lançou, em 2020, a campanha “Um Só Corpo Contra o Abuso”.
O Veredito de Bruna Santini
Para Bruna Santini, Helena Raquel fez algo raro e necessário: usou a própria estrutura de autoridade religiosa para confrontar seus pares. No livro de Juízes, Deus escolheu uma mulher chamada Débora para ser sua mensageira. Seu nome significa “abelha”: produz mel, mas ferroa quando precisa. Na noite de sábado, em Camboriú, o mesmo, escreve a colunista, poderia ser dito de Helena.
A angústia que circula nas redes — a dúvida se ela será bem recebida no congresso do ano que vem — apenas reforça, na visão de Santini, o tamanho da ferida exposta. Mesmo entendida como necessária, a mensagem de Helena ainda provoca controvérsia. E é aí, para a colunista, que reside sua força: a mesma Bíblia que foi distorcida para silenciar vítimas aponta para um Salvador que veio libertá-las.



