A crise da BioNtech, criadora da 1ª vacina contra a covid‑19




O logotipo da BioNTech em Marburg, Alemanha. Foto de 2 de fevereiro de 2023.
REUTERS/Fabian Bimmer
Há seis anos, uma empresa farmacêutica alemã quase desconhecida desenvolveu a primeira vacina contra a covid‑19 baseada em RNA mensageiro (mRNA) e mudou o rumo de uma pandemia global.
Anteriormente, a BioNTech havia passado mais de uma década pesquisando imunizantes desse tipo para tratar câncer sem despertar grande interesse comercial. Com a experiência acumulada, a empresa se uniu à Pfizer em 2020 para concluir exames clínicos e lançar a vacina Comirnaty em tempo recorde.
Em dezembro daquele ano, a britânica Margaret Keenan recebeu a primeira dose. Anteriormente, Rússia e China haviam aplicado imunizantes de vetor viral de forma emergencial, mas ainda sem estarem concluídas todas as fases de avaliação.
Hoje, porém, a empresa de biotecnologia sediada na cidade alemã de Mainz enfrenta um duro acerto de contas. A companhia que um dia distribuiu bilhões de doses de vacina, creditada por evitar milhões de mortes por covid e permitir a reabertura de economias em lockdown, agora corre risco pela aposta em um produto único.
Vídeos em alta no g1
Na terça‑feira (05/04), a BioNTech anunciou um amplo corte de custos após registrar prejuízo líquido trimestral de 532 milhões de euros (R$ 3 bilhões).
Unidades de produção na Alemanha e em Singapura serão fechadas, e seus fundadores, Ugur Sahin e Özlem Türeci, devem deixar a empresa. No total, cerca de 1.860 empregos devem ser afetados.
Por que a BioNTech está em crise?
Analistas financeiros dizem que os problemas da BioNTech decorrem do fim previsível de um ganho temporário com a covid, que gerou dezenas de bilhões de euros em receita desde o fim de 2020.
Isso, combinado com a natureza de alto risco da pesquisa e desenvolvimento no setor de biotecnologia, evidenciou o risco de depender de um único produto. Os problemas econômicos atuais da Alemanha, como os altos custos de mão de obra e energia, além da burocracia, contribuem para o cenário.
A demanda pela vacina contra a covid da BioNtech, a Comirnaty, evaporou mais rápido do que o esperado, com a receita do primeiro trimestre de 2026 caindo para 118 milhões de euros (R$ 684 milhões) – um recuo de 35% em relação ao mesmo período do ano passado.
Ao anunciar os resultados, a empresa afirmou que “antecipa receitas menores com vacinas contra a covid‑19 em comparação com 2025, impulsionadas por quedas tanto nos mercados europeu quanto dos Estados Unidos”.
Analistas dizem que a companhia ampliou em excesso sua capacidade produtiva durante o boom e agora enfrenta fábricas ociosas. Como resultado, a Biontech afirma que transferirá toda a produção da vacina contra a covid para a Pfizer.
Cortes miram a CureVac após aquisição
A empresa também se envolveu em controvérsia com a aquisição de 1,25 bilhão de dólares (R$ 6,16 bilhões) da rival CureVac, em dezembro de 2025. A concorrente havia desenvolvido seu próprio imunizante candidato contra a covid, que apresentou baixa eficácia e foi abandonado. Ainda assim, isso não a impediu de processar a BioNTech e a Pfizer em 2022, alegando que a vacina Comirnaty infringia várias de suas patentes de mRNA.
Ao comprar a rival — e suas patentes —, a farmacêutica conseguiu encerrar todos os litígios e evitar potenciais indenizações de vários bilhões de euros.
Mas, em mais um golpe, quando a BioNTech anunciou nesta semana a reestruturação e os fechamentos, a antiga fábrica da CureVac em Tübingen, perto de Stuttgart, foi uma das incluídas na lista de cortes.
O prefeito de Tübingen, Boris Palmer, acusou a empresa de adotar uma estratégia de “comprar primeiro e depois matar”, acrescentando que o fechamento da planta foi um “golpe duro” para os “muitos funcionários altamente qualificados que sustentaram a CureVac por anos”.
A medida foi classificada como uma “abordagem planejada de terra arrasada” pela organização sindical IG BCE, que criticou o que chamou de “razões financeiras de curto prazo que prejudicariam a resiliência do polo de biotecnologia da Alemanha”.
A câmara de comércio local (IHK Reutlingen) alertou, em comunicado, que “know‑how tecnológico na forma de mentes brilhantes, patentes e resultados de pesquisa e desenvolvimento será perdido” com o fechamento da fábrica.
A BioNTech consegue prosperar sem seus fundadores?
Sahin e Türeci, que em março anunciaram que deixarão a empresa até o fim do ano para lançar um novo empreendimento de biotecnologia, não eram apenas os fundadores da Biontech, mas a principal força motriz por trás do sucesso da companhia.
Como sinal de seu papel central, as ações da empresa despencaram cerca de 18% após o anúncio, com o banco de investimentos Leerink Partners, sediado em Boston e focado em saúde, questionando se a empresa conseguirá manter sua vantagem inovadora sem eles.
“A empresa consegue efetivamente repetir e expandir sua abordagem sem a visão de seus fundadores?”, questionaram analistas da Leerink em uma nota de pesquisa.
A farmacêutica agora retoma seu foco em tratamentos de mRNA contra o câncer, incluindo novas terapias desenvolvidas com a Bristol Myers Squibb para câncer de mama, pulmão e outros tipos.
Em sua atualização trimestral mais recente, a empresa disse que espera ter 15 ensaios clínicos de Fase 3 decisivos em andamento até o fim do ano.
Sahin afirmou que a BioNTech “continuará focada em acelerar nossos principais programas estratégicos, enquanto permanecemos firmes em nossa visão de traduzir nossa ciência em sobrevivência para pacientes que vivem com câncer”.
Ao transferir a produção da vacina contra a covid para a Pfizer e fechar algumas fábricas, a BioNTechpretende economizar cerca de 500 milhões de euros (R$ 2,8 bilhões) por ano até 2029.
A empresa diz que manterá uma pequena participação na nova startup que está sendo lançada por seus fundadores, que trabalhará em tecnologia de mRNA de próxima geração.



Source link

Mais previsões: Tempo 25 dias