“Feliz Ano Velho” foi o espetáculo teatral mais bem-sucedido da vida de Denise Del Vecchio. Nele, interpretou Eunice Paiva (1929-2018), a mãe de Marcelo Rubens Paiva, autor do livro de mesmo nome, lançado em dezembro de 1982.
No início de 1983, a atriz teve a oportunidade de estudar pessoalmente sua personagem. “Eunice foi muito, muito gentil. Me levou para o quarto dela e mostrou fotos dela e do Rubens. Ela nunca se lamentou nunca, nunca”, recorda Denise, em entrevista à coluna. Na ocasião, Eunice tinha 53 anos e Denise, 32.
Dirigida por Paulo Betti e escrita por Alcides Nogueira, a peça teve uma pré-estreia apenas sete meses depois do lançamento do livro, em 3 de julho de 1983, durante o Festival de Inverno de Campos do Jordão. Em 31 de agosto, entrou em circuito comercial em São Paulo e, até 1988, rodou o Brasil e o mundo, em países como Cuba, EUA, Porto Rico e México.
Antes da estreia, porém, o elenco da peça fez uma leitura para Eunice, Marcelo e sua irmã Vera. “Fomos para a minha casa, no Brooklyn, fazer a leitura para ela. Terminamos e Eunice falou assim: ‘É necessário que seja montada, essa peça tem que ser montada’. Foi o comentário final. Aí foi o sucesso que foi.”
No filme “Ainda Estou Aqui”, baseado em outro livro de Marcelo, Eunice Paiva é vivida por Fernanda Torres, indicada ao Oscar de melhor atriz neste ano —já ganhou o Globo de Ouro. A obra de Walter Salles concorre a outros dois prêmios da academia: de melhor filme e de melhor filme estrangeiro.
O livro “Ainda Estou Aqui”, lançado em 2015, conta a história de como o ex-deputado Rubens Paiva (1929–1971) foi assassinado pela ditadura militar e a luta de Eunice Paiva para manter a família, com cinco filhos, unida.
Já em “Feliz Ano Velho”, Marcelo descreve sua vida de universitário e conta como pulou de cabeça no açude de um sítio, ficando tetraplégico ao quebrar a quinta vértebra cervical e comprimir a medula.
O espetáculo foi um fenômeno pop. O elenco contava com Marcos Frota no papel de Marcelo, além de Lilia Cabral, Adilson Barros, Christiane Rando e Marcos Kaloy. No Centro Cultural São Paulo (CCSP), onde teve uma temporada de três semanas a preços populares, as filas eram imensas.
“Foi um escândalo. O público chegou a quebrar uma porta de vidro tamanha a aglomeração”, lembra Denise em trecho de sua biografia “Memórias da Lua”, escrita por Tuna Dwek e lançada em 2005, na Coleção Aplauso.
“Podíamos mais uma vez denunciar, através do teatro, os anos de opressão que desagregaram tantas famílias como a do deputado Rubens Paiva, mostrando a dignidade de uma mulher extraordinária como Eunice Paiva sempre próxima de seus filhos. Mostrar o sofrimento sem pieguice, sem melodrama. O público recebeu nosso espetáculo de coração aberto, assim como a crítica especializada, que lhe deu 18 prêmios.”
Além dos prêmios e da aclamação, o espetáculo possibilitou a Denise comprar sua primeira casa (após pagar a sua mãe, que lhe emprestou dinheiro para a montagem) e abriu as portas do sucesso para vários de seus atores. “Lilia e o Marco saíram diretamente para a Globo. Paulo Betti foi chamado para dirigir todas as peças do Rio e eu também estreei na Globo, na minissérie ‘Máfia no Poder’ (1984).”
Em 2000, a peça foi remontada por Betti, com Cláudio Fontana como Marcelo Paiva e Denise reprisando Eunice. “Mas o momento em que o espetáculo aconteceu, a primeira vez, quando ele era absolutamente afinado com o momento político e cultural do país, tinha passado. Foi bom, tinha público, mas não era mais aquela energia, aquele brilho que teve a primeira montagem. Ficou nostálgico.”
Denise Del Vecchio, 73, é uma das atrizes mais importantes do Brasil, com uma carreira iniciada em 1970. Atuou em dezenas de peças, filmes e novelas. Hoje, está em cartaz, com o grande sucesso “Tom na Fazenda”, uma trama de mentiras num ambiente rural rústico e perigoso.
EUNICE
Para a preparação, nós [Denise e Alcides Nogueira] fomos à casa da família Paiva. Eles moravam num apartamento nos Jardins. A Eunice foi muito, muito gentil. Me levou para o quarto dela, onde tinha uma penteadeira. Abriu a gaveta, nos mostrou fotos dela e do Rubens. E contou isso que tem no próprio filme de Salles, como ele era um homem divertido. Ela nunca se lamentou, nunca, nunca.
Uma das fotos era dos dois sentados numa carruagenzinha e as pombas sobre eles, uma foto linda, feita em uma viagem à Europa. Ela então me falou uma coisa que eu nunca esqueço. “Depois que eu perdi o Rubens, a Europa perdeu a graça para mim.”
Ela contou para a gente uma cena que incluiu na peça. Era passagem de ano e o Marcelo estava internado, depois da queda. E ela ficou ali esperando, Passou a noite ali junto do Marcelo no hospital. Mas ela nunca se lamentava. Nunca. Então, essa coisa que eu vi na Eunice, que eu coloquei no meu trabalho naquela época, é a mesma coisa que a Fernandinha viu nas entrevistas, eu tive a felicidade de ver pessoalmente.
CERTIDÃO
Em 1983, ainda não havia o reconhecimento do óbito [que aconteceu em 1996]. Eles ainda não tinham podido entrar nas contas bancárias do Rubens, não tinham tido acesso ao dinheiro dele. Imagina? Quantos anos… Isso só pôde acontecer depois do certidão de óbito. Eles ficaram sem dinheiro. Lembro que o Marcelo até disse que a família vendeu alguns quadros que tinha para poder sobreviver.
E Eunice tinha se formado em advocacia e trabalhava com os indígenas. Ela ia trabalhar com os indígenas. E ela tinha uma visão de lutadora pela causa e temia que o grande capital não permitiria que as terras indígenas fossem preservadas, que a vida indígena fosse preservada. Muito à frente do seu tempo. Ela era inacreditável.
LEITURA
O texto ficou pronto antes da montagem. Só que o Alcides incluiu mais sobre a Eunice e o desaparecimento do Rubens. Essa história que foi contada agora no “Ainda Estou Aqui” era mais presente na peça do que no livro “Feliz Ano Velho”. Aí, o Marcelo disse “quem tem que aprovar esse espetáculo é a minha mãe”.
Então, fomos para a minha casa, o elenco, o Paulo Betti, a Veroca [irmã de Marcelo], o Marcelo e a Eunice. Eu morava no Brooklyn, em São Paulo. Sentados todos no chão, fizemos uma leitura para ela. Terminamos e Eunice falou assim: “É necessário que seja montada, essa peça tem que ser montada”. Foi o comentário final. Aí foi o sucesso que foi, um escândalo. Onde a gente ia era um escândalo.
MONTAGEM
Como não tínhamos verba, pedimos dinheiro para minha mãe, para o Adilson Barros, que fez o papel do Rubens Paiva, e assim fomos construindo nosso sonho. A gente não tinha um tostão. Só a vontade de fazer o espetáculo. Então eu falei com a minha mãe. “Mãe, eu preciso de 500 cruzeiros, algo assim”. Era como se fosse uns R$ 10 mil hoje. Ela foi lá, tirou da poupança e me emprestou. E o Adilson pegou o mesmo tanto da poupança dele. Foi com esses R$ 20 mil de hoje que a gente montou a peça.
Aí, tinha que ter duas meninas, que são as namoradas. Vieram a Lilia Cabral e a Christiane Rando, que era uma atriz da Escola de Arte Dramática, bastante jovem, linda, que depois desistiu da carreira. Hoje é uma empresária, se safou. E para fazer o Marcelo, veio Marcos Frota, que era muito jovem, tinha uma energia inacreditável, era uma potência de energia. E nós nos enfiamos num porão na praça Benedito Calixto, que eu acho que era do PT (que naquela época estava começando o PT), cheio de restos de construção. Passamos a ensaiar ali. Eu lembro que era inverno, fazia muito frio, muito frio.
Quando terminou a temporada do Centro Cultural, tanto eu quanto o Adilson já tínhamos conseguido receber o que emprestamos. Toda semana, a gente dividia o que sobrava depois dos gastos e todo mundo recebia sua parte. A gente ganhava bem.
PRIMEIRO IMÓVEL
A peça tinha muito a ver com aquele momento. O rock and roll brasileiro estava florescendo. O livro já era um sucesso, a juventude lia aquele livro. Foi um trabalho que me possibilitou viver só de teatro e comprar minha primeira casa, o que adquire um significado muito forte quando penso em toda a minha trajetória. Eu não tinha casa.
E comprei uma lá no Jardim Consórcio, perto de Interlagos. Uma casinha muito simples, mas era bonitinha, com jardim. Era uma casinha gostosa.
Eu não tenho mais, vendi. E vim morar na avenida Paulista. Hoje eu moro aqui. É uma loucura. Eu sempre fui apaixonada pela Paulista, hoje ela está um pouco decadente, mas…
noticia por : UOL