A Assembleia dos Peritos do Irã anunciou oficialmente, no último domingo (8), a escolha do clérigo xiita Mojtaba Khamenei como o novo líder supremo do país. A decisão foi tomada pelo órgão composto por 88 religiosos, que possui autoridade constitucional para designar a mais alta autoridade do regime islâmico .
Mojtaba, de 56 anos, sucede seu pai, Ali Khamenei, que governou o Irã desde 1989 e morreu no fim de fevereiro de 2026 durante os ataques militares realizados no contexto da escalada do conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e forças iranianas. A nomeação ocorre poucos dias após a morte do antigo líder e em meio a uma guerra regional que já provocou centenas de mortes e forte instabilidade no Oriente Médio .
Perfil do novo líder
Diferentemente de seu pai, Mojtaba Khamenei sempre manteve um perfil discreto, nunca tendo ocupado cargos governamentais formais ou realizado discursos públicos. No entanto, analistas e documentos diplomáticos vazados pelo WikiLeaks o descrevem há anos como uma figura de enorme influência nos bastidores da política iraniana, sendo frequentemente chamado de “o poder por trás das vestes” .
Nascido em 1969 na cidade sagrada xiita de Mashhad, Mojtaba é o segundo filho de Ali Khamenei. Ainda adolescente, serviu brevemente durante a Guerra Irã-Iraque (1980-1988), conflito de oito anos que aprofundou a desconfiança do regime em relação ao Ocidente.
Aos 30 anos, ingressou no seminário de Qom, centro de estudos teológicos xiitas, tornando-se clérigo de nível intermediário — uma possível limitação para o cargo, embora seu pai também tenha sido promovido rapidamente após assumir a liderança em 1989 .
Sua influência sempre esteve fortemente ligada à Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) e à milícia Basij, com as quais mantém estreitas relações. Em 2019, o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos impôs sanções a ele, acusando-o de “avançar os objetivos desestabilizadores regionais e as metas domésticas opressivas de seu pai” e de atuar em capacidade oficial, apesar de nunca ter sido eleito ou nomeado formalmente .
A escolha de Mojtaba ocorre após anos de especulação sobre uma possível sucessão hereditária, algo que críticos dentro e fora do Irã apontam como uma contradição com os princípios republicanos da revolução de 1979. Relatos indicam que o próprio Ali Khamenei, em conversas privadas, teria se manifestado contra a ideia de seu filho assumir o posto, mas tais alegações nunca foram confirmadas publicamente .
Contexto de guerra e reações internacionais
A nomeação acontece no nono dia da ofensiva militar liderada por EUA e Israel contra o Irã, que visa conter o programa nuclear e a influência regional iraniana. Os ataques já deixaram mais de 1.250 mortos, incluindo o líder supremo anterior, e causaram danos significativos à infraestrutura do país, como os depósitos de petróleo em Teerã que continuam em chamas .
A Guarda Revolucionária prometeu lealdade imediata ao novo líder, declarando que “esta eleição marca uma nova aurora e o início de uma nova fase na Revolução Islâmica” .
A sucessão gerou reações contundentes da comunidade internacional. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, havia classificado antecipadamente a possibilidade de Mojtaba assumir como “inaceitável”, defendendo que deveria ter participação pessoal no processo de escolha. Após a confirmação, Trump reiterou que, sem a aprovação americana, o novo líder “não vai durar muito” .
Israel também endureceu o tom. O ministro da Defesa israelense, Israel Katz, havia advertido que qualquer sucessor de Ali Khamenei se tornaria um “alvo legítimo de eliminação”. As Forças de Defesa de Israel afirmaram que “perseguirão qualquer sucessor de Ali Khamenei” .
Perspectivas futuras
Analistas consultados por veículos internacionais apontam que a ascensão de Mojtaba Khamenei sinaliza a opção do regime pela linha mais radical e de confronto com o Ocidente. Alan Eyre, ex-diplomata americano e especialista em Irã, afirmou que Mojtaba “é mais linha-dura que seu pai” e que terá “muita vingança a executar” .
Sun Degang, diretor do Centro de Estudos do Oriente Médio da Universidade Fudan, avaliou que o impulso pessoal de Mojtaba por vingança familiar se alinha ao sentimento nacional de ressentimento, devendo levá-lo a adotar uma postura ainda mais intransigente contra EUA e Israel, prolongando o conflito em curso .
Patrick Clawson, pesquisador sênior do Washington Institute, projeta que o novo líder provavelmente adotará uma estratégia de “consolidação desafiadora”, contando com a Guarda Revolucionária, expandindo ataques com mísseis, mantendo o apoio a aliados regionais e acelerando o programa nuclear iraniano .
Enquanto isso, a China manifestou posição cautelosa, afirmando que a nomeação segue a constituição iraniana e defendendo o respeito à soberania do país, ao mesmo tempo em que pede o fim imediato do conflito militar .
O Irã, por sua vez, sinaliza preparação para uma guerra prolongada. A Guarda Revolucionária afirmou ter capacidade para sustentar combates em alta intensidade por pelo menos seis meses, enquanto o primeiro vice-presidente iraniano declarou que o objetivo estratégico é forçar a retirada completa dos EUA do Oriente Médio. Com: Reuters.



