
O CEO (diretor-executivo) da Palantir, Alex Karp, levou a empresa a ser líder em análise de dados
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Sempre que você se conecta à internet, alguém está coletando as informações que você vai deixando, seja o seu provedor, o servidor da página que você está visitando ou o navegador usado durante o acesso.
Todas estas informações ajudam as empresas a compreender melhor o comportamento dos seus clientes e projetar estratégias e produtos que atendam melhor às necessidades dos consumidores.
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Da mesma forma, os dados podem ser empregados para localizar indivíduos considerados como ameaça. Foi o que fizeram os Estados Unidos para encontrar o bunker de Osama Bin Laden (1957-2011) no Paquistão.
E também servem para identificar e definir alvos militares, como faz atualmente o exército israelense no Irã. Mas, para que as informações sejam úteis, a sua coleta pura e simples não é suficiente.
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A quantidade cada vez maior de dados produzidos na Web todos os dias (estimados em cerca de 400 milhões de terabytes) faz com que as organizações precisem usar programas especializados, alimentados por inteligência artificial, para poder coletá-los, organizá-los e, por fim, interpretar o que eles podem revelar.
Atualmente, a maioria dos especialistas em cibersegurança concorda que não existe no mundo um software de análise de dados que possa ser comparado, em termos de complexidade e alcance, com o da companhia americana Palantir, especialmente em relação à segurança e à inteligência militar.
No final do ano passado, o colunista do jornal The New York Times Michael Steinberger publicou o livro The Philosopher in the Valley: Alex Karp, Palantir, and the Rise of the Surveillance State (“O filósofo no Vale: Alex Karp, a Palantir e a ascensão do estado de vigilância”, em tradução livre).
Ele defende que parte do sucesso da empresa se deve ao fato de ter desenvolvido sua tecnologia lado a lado com os serviços de inteligência dos Estados Unidos.
O poder das ferramentas da Palantir gerou protestos nos Estados Unidos
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“A reviravolta para a Palantir foi o recebimento de fundos da In-Q-Tel, que foi o braço de investimento de capital da CIA”, a Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos, explica Steinberger à BBC News Mundo, o serviço em espanhol da BBC.
“Além do investimento, que foi imenso, os engenheiros da Palantir tiveram acesso aos analistas da CIA e, por isso, conseguiram desenvolver o software lado a lado com eles.”
Tudo isso faz com que as ferramentas da Palantir sejam largamente utilizadas por diversas agências do governo americano. E não apenas pelos órgãos de inteligência, como a CIA, o FBI (Escritório Federal de Investigações) e a NSA (Agência Nacional de Segurança).
Entidades de saúde dos Estados Unidos, como os Centros de Controle de Doenças (CDC), e agências migratórias, como o ICE (Serviço de Imigração e Alfândega), também fazem uso dos programas da Palantir.
O ICE emprega atualmente essas ferramentas para identificar e localizar imigrantes procurados para detenção e deportação.
“O trabalho do ICE ao lado da Palantir começou em um momento de crise, algo típico em relação à Palantir”, explica Steinberger.
“Eles cobram bastante pelos seus serviços e muitas organizações acreditam que podem economizar, se desenvolverem um software in-house. Mas, quando chega a crise, eles decidem experimentar.”
“Foi o que aconteceu com o ICE em 2014”, relembra ele.
“Quando um agente da DEA [a Agência de Combate às Drogas dos Estados Unidos] foi morto no México e o governo precisava encontrar os assassinos, eles recorreram à Palantir, que reuniu uma grande quantidade de dados em poucos dias e permitiu que eles encontrassem o assassino com muita facilidade.”
Para podermos entender o papel desempenhado atualmente pela Palantir no setor militar americano, é preciso retornar à criação da empresa e ao momento histórico que forneceu diretamente sua razão de ser: os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001.
Do PayPal ao governo dos Estados Unidos
Max Levchin e Peter Thiel são os fundadores da empresa que se transformaria no PayPal
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No final dos anos 1990, a internet passava por um seus períodos de maior e mais rápida expansão.
No que viria a ser conhecido como o “boom das ponto com”, milhares de empreendedores se aventuraram a lançar negócios na rede.
Muitas empresas que, hoje, são imensos conglomerados digitais começaram naquela época. Uma delas foi o PayPal, talvez a plataforma de pagamentos digitais mais conhecida do mundo.
Ela surgiu da fusão de duas empresas distintas. Uma delas era a Confinity, do então jovem investidor Peter Thiel. A outra foi a X.com, de Elon Musk, hoje principal acionista da Tesla e do X (antigo Twitter).
Naquela época, a segurança das transações online estava começando a ser desenvolvida. E o PayPal passou a ser o site preferido dos golpistas, graças ao anonimato que ele proporcionava.
Em resposta, o sócio de Thiel e um dos fundadores da Confinity (depois, PayPal), Max Levchin, se concentrou no desenvolvimento de um software que, por meio de algoritmos, pudesse garantir a segurança das transações ocorridas dentro da plataforma, para poder liberar todo o potencial das compras via internet.
O software recebeu o nome de Igor, o mesmo do golpista russo que se tornaria o primeiro a cair com a nova ferramenta. O sucesso foi tanto que o software conseguiu reduzir as fraudes nas transações para menos de 0,5%, colocando o PayPal na vanguarda do comércio online.
Como era de se esperar, o sucesso da ferramenta também chamou a atenção das autoridades americanas. O FBI se interessou e começou a trabalhar com a equipe de segurança do PayPal em investigações de fraude.
Até que veio o dia 11 de setembro de 2001, quando tudo mudou.
Os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001 inspiraram Thiel a desenvolver a tecnologia da Palantir
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“Uma forma de ver os atentados de 11 de setembro é que eles constituíram uma falha de integração de dados”, segundo Steinberger. “E, de fato, o relatório da Comissão do 11 de Setembro afirmou exatamente isso.”
“Houve uma falha na hora de conectar os pontos, que conduziu àquela tragédia. A CIA dispunha de informações, o FBI dispunha de informações, mas eles não se comunicavam entre si. A informação não era compartilhada.”
Para Peter Thiel, ficou claro que, frente a este problema de organização de dados, o Igor poderia ser muito útil para os diferentes serviços de inteligência americanos. Por isso, ele começou a buscar uma forma de entrar em contato com a CIA.
‘CEO filósofo’
Karp acredita que a tecnologia da Palantir é fundamental para ‘proteger o modo de vida ocidental’
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Quando Thiel começou a buscar o capital necessário para desenvolver o projeto que tinha em mente, ele se encontrou novamente com Alex Karp.
Ambos eram bons amigos na Faculdade de Direito da Universidade Stanford, nos Estados Unidos, mesmo estando em polos opostos do debate ideológico. Thiel é um conservador devoto e Karp, um progressista convicto, filho de um casal inter-racial.
Sua amizade se baseou principalmente no descontentamento gerado pela educação que recebiam em uma das melhores universidades do país, pela paixão comum pelo xadrez e pelas discussões acaloradas sobre temas profundos.
Karp é doutor em filosofia alemã e foi aluno do filósofo Jürgen Habermas (1929-2026). Quando se reencontraram após os atentados de 2001, Thiel o recrutou para ajudar a conseguir investidores para o empreendimento. E ficou surpreso com a sua paixão pelo projeto.
O nome Palantir é uma homenagem às pedras mágicas da saga de livros O Senhor dos Anéis. Elas davam a quem as possuísse o poder de ver o mesmo que seus inimigos.
A associação com a obra de J. R. R. Tolkien (1892-1973) é tão forte que os funcionários da empresa se denominam palantirianos e alguns dos seus escritórios são adornados com runas élficas.
Apesar da sua falta de experiência no campo militar, os diretores da empresa decidiram fazer de Karp seu CEO (diretor-executivo), por ter visão mais clara do que eles desejavam fazer com a Palantir.
Parte do sucesso da Palantir se deve ao acesso da empresa às agências de segurança dos Estados Unidos
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Mesmo tendo sido criado em um lar progressista, no Estado americano da Califórnia, e estudado filosofia na Alemanha, as ideias de Karp “evoluíram” com o passar do tempo, segundo Steinberger. “Elas se aproximaram da forma como Peter Thiel observa o mundo.”
“Karp fala cada vez menos da defesa da democracia liberal e mais da defesa do Ocidente como entidade cultural. Esta sempre foi a controversa postura de Thiel, que afirma não acreditar que a liberdade (em referência à liberdade econômica) e a democracia sejam compatíveis.”
Karp também defende a superioridade militar e tecnológica dos Estados Unidos como “o fator de dissuasão mais importante” do mundo atual.
“As guerras são travadas com tecnologia”, declarou Karp durante um fórum recente em Washington, sobre o início dos ataques dos Estados Unidos e Israel ao Irã.
“Se observamos a operação ‘Martelo da Meia-Noite’ [o ataque americano à infraestrutura nuclear iraniana em 2025], a operação na Venezuela [que capturou Nicolás Maduro] ou a operação que estamos vendo no Irã, veremos uma sociedade totalmente dominadora”, prosseguiu ele, “e esta sociedade é a nossa.”
“Sempre discuto com meus amigos intelectuais quando me perguntam ‘mas não seria melhor um sistema de normas em que todos sejam iguais?’ e eu respondo: ‘Sim, claro. Na teoria. Mas, neste mundo, somos nós ou é a China ou a Rússia.'”
Alex Karp afirma que os Estados Unidos ‘dominam’ outras sociedades
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Recentemente, a Palantir publicou nas redes um resumo de 22 pontos das ideias apresentadas por Karp no seu livro A República Tecnológica: Tecnologia, Política e o Futuro do Ocidente (Ed. Intrínseca, 2025), que muitos descreveram como o manifesto da empresa.
Os pontos refletem algumas das ideias mais polêmicas do pensamento libertário americano, como a declaração de que, embora “algumas culturas tenham produzido avanços fundamentais, outras continuam sendo disfuncionais e regressivas”, ou que os países ocidentais “devem resistir à tentação superficial de um pluralismo vazio e oco”.
Para Karp, “uma era de dissuasão — a era atômica — está terminando e uma nova era de dissuasão, baseada na inteligência artificial, está a ponto de começar” e “se um soldado da marinha americana pedir um fuzil melhor, devemos construí-lo e o mesmo se aplica ao software”.
A publicação do manifesto gerou grandes polêmicas nas redes sociais. Muitos comentários expressaram repúdio e preocupação.
A parlamentar britânica Victoria Collins declarou que a lista parecia fruto dos “desvarios de um supervilão”.
“É preciso entender um ponto sobre a Palantir”, destaca Steinberger. “Ela foi política desde o princípio.”
“Ela foi fundada para ajudar o governo de Washington a combater a guerra contra o terrorismo. Isso gerou a ideia de que ‘estamos ajudando o governo dos Estados Unidos e seus aliados a defender seu modo de vida’.”
Desde o princípio, a empresa se comprometeu a não vender sua tecnologia para países como a China ou a Rússia, considerados adversários geopolíticos dos Estados Unidos.
“Atualmente, não há dúvida sobre essa concorrência, mas, em 2007 ou 2008, era um tanto atrevido sair dizendo que você não iria oferecer seus produtos no mercado que mais crescia no mundo.”
Por outro lado, a empresa oferece seus serviços a países alinhados às políticas americanas, como Israel.
“Eles sempre se consideraram os guardiões do Ocidente”, segundo Steinberger. “Esta é uma ideia básica da empresa desde a fundação.”
“No livro, falo sobre a relação da Palantir com o Mossad [o serviço de inteligência de Israel], que entrou em contato com eles em meados dos anos 2000 e é cliente da empresa desde então. E, depois [do ataque do Hamas] de 7 de outubro de 2023, as IDF [Forças Armadas de Israel] basicamente disseram ‘precisamos do seu produto’.”
Outros países que empregam as ferramentas da Palantir incluem o Reino Unido (dos serviços de saúde até o Ministério da Defesa), Ucrânia, França, Canadá, Alemanha, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita.
Estado de vigilância?
A Palantir é uma das empresas de IA mais bem sucedidas da atualidade
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Mais de duas décadas se passaram desde a fundação da Palantir e seus produtos se transformaram em uma poderosa arma para os Estados Unidos e seus aliados.
A Palantir desenvolveu as ferramentas que levaram à morte de Osama Bin Laden em 2011 e foram um componente fundamental para a retirada das tropas americanas do Afeganistão em 2021.
Além disso, seu sistema de integração de dados Maven é empregado atualmente para identificar alvos militares no Irã e operar os drones deslocados pelos Estados Unidos para a região.
A Palantir também é a empresa encarregada de desenvolver o software do “Domo de Ouro”, um dos projetos mais emblemáticos do segundo mandato de Donald Trump: um sistema de mísseis antiaéreos similar ao “Domo de Ferro” de Israel, capaz de proteger o país contra qualquer tipo de ameaça, incluindo mísseis nucleares.
Paralelamente, a Palantir oferece serviços a empresas civis, como a Airbus, Panasonic, Merck e até para a equipe de Fórmula 1 da Ferrari, para gestão e análise dos seus dados.
O preço das ações da Palantir registra crescimento constante, desde o início da guerra no Irã
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Devido exatamente a esta versatilidade das suas ferramentas, a Palantir defende que os organismos reguladores do governo, não a própria empresa, devem ser responsáveis por impor limites aos usos da sua tecnologia.
Em entrevista à BBC, o diretor da Palantir no Reino Unido e no continente europeu, Louis Mosley, explicou que o software da empresa foi projetado para sempre exigir um ser humano para tomar decisões.
“É assim que ele está programado atualmente”, garante Mosley.
Mas muitos críticos destacaram que a velocidade de análise e previsões dessas ferramentas pode levar a erros de confirmação por parte dos usuários.
“Esta priorização da velocidade e da escala, além do uso da força, deixa muito pouco tempo para a verificação significativa dos seus objetivos, a fim de assegurar que não sejam incluídos acidentalmente alvos civis”, declarou à BBC a professora Elke Schwarz, da Universidade Queen Mary de Londres.
A tecnologia da Palantir tem todo tipo de uso, civil ou militar
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Mas, para Mosley, “na verdade, esta é uma questão para nossos clientes militares. São eles que decidem o marco normativo que determina quem pode tomar qual decisão.”
Mesmo com todas as críticas e preocupações geradas pela sua tecnologia, a Palantir está avaliada em mais de US$ 380 bilhões (cerca de R$ 1,9 trilhão) e continua aumentando.
“Aqui, surge a questão do grau de responsabilidade que recai sobre a Palantir em relação ao uso que é feito do seu produto”, destaca Michael Steinberger. “E esta é uma questão muito real neste momento, por exemplo, em referência às suas relações com o ICE.”
“A Palantir tem alguma responsabilidade pelos abusos que estão sendo cometidos? Eles têm conhecimento disso? Se forem perpetrados crimes de guerra com essa tecnologia, a Palantir tem alguma responsabilidade?”, questiona o colunista do The New York Times.
“Estas são algumas das questões que a empresa está enfrentando. E são perguntas que atingem diretamente o centro das controvérsias que rodeiam a Palantir”, conclui Steinberger.
Com informações do repórter de IA da BBC News, Marc Cieslak, e de Matt Murphy, da BBC Verify (o serviço de verificação de dados e imagens da BBC).
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