Intuito do Eca Digital, ou Lei Felca, é “censurar o Brasil inteiro”


O vídeo “Adultização”, do influenciador Felca, tornou-se um fenômeno viral recentemente, gerando debates acalorados sobre a erotização precoce de crianças e o trabalho infantil. A peça audiovisual, que acumula milhões de visualizações, foi rapidamente abraçada por setores da imprensa, artistas e parlamentares, dando fundamento à criação do “Eca Digital”.

No entanto, uma análise mais detida do conteúdo e de seus desdobramentos revela um cenário bem mais complexo, segundo avaliação da jornalista Paula Schmitt em seu artigo publicado no portal Poder360. Para ela, em muitos aspectos o seu conteúdo é profundamente hipócrita.

Schmitt diz que o que se vende como um grito de alerta genuíno parece, na verdade, uma cortina de fumaça para interesses políticos e econômicos, enquanto aqueles que deveriam dar o exemplo são flagrados em situações no mínimo constrangedoras.

O abraço do presidente

No dia 14 de agosto, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva participou de um evento em Recife ao lado do cantor Anderson Neiff, figura conhecida do brega. Neiff vestia uma camiseta com a frase “Respeita quem te come”, uma expressão que, em seu contexto, carrega uma clara conotação de ameaça e submissão. A cena, que deveria ter causado constrangimento imediato, passou despercebida por muitos, mas não por quem conhece o histórico do cantor.

Neiff é amigo e parceiro de Hytalo Santos, o principal alvo do vídeo de Felca. Santos foi preso na Paraíba sob acusações relacionadas à exploração sexual de adolescentes em uma espécie de “reality show” caseiro.

Mais grave ainda: o próprio Neiff é investigado pela polícia há mais de um mês, não apenas porque duas pessoas morreram em um de seus shows, mas porque o evento contou com a participação de uma menina de 11 anos que teria dançado eroticamente no palco. Mensagens atribuídas a ele, dirigidas a uma adolescente de 14 anos, são ainda mais explícitas e perturbadoras.

O episódio expõe uma contradição insustentável: enquanto o governo se coloca na linha de frente do combate à “adultização” infantil, a mais alta autoridade do país posa para fotos com um investigado por exploração de menores. A mensagem transmitida é clara: a cruzada moral se aplica a adversários políticos, não a aliados.

A construção de um pânico moral

O vídeo de Felca, com sua estética apelativa, luzes estroboscópicas e palavras de ordem como “doentio” e “asqueroso”, opera na fronteira entre a legítima preocupação e a manipulação grosseira. Seu erro fundamental, apontado por críticos, é apresentar o abuso infantil como um “problema novo surgido com a internet”, ignorando séculos de história em que crianças foram exploradas em minas de carvão, fábricas têxteis e conflitos bélicos.

Mais grave, porém, é a estratégia de amalgamar questões completamente distintas. Ao lado da denúncia legítima da exploração sexual, o vídeo inclui ataques a “empresários mirins” e crianças que “falam e agem como adultos”. Pais que incentivam os filhos a empreender ou a trabalhar honestamente são jogados na mesma vala dos que exploram sexualmente menores para lucro.

A técnica, segundo a jornalista, é velha conhecida dos manuais de propaganda: toma-se um caso real e chocante, generaliza-se sua ocorrência e cria-se um ambiente de medo que justifica medidas extremas. No limite, qualquer foto de criança na internet, qualquer vídeo de aula de balé ou ioga, qualquer menino ajudando nos serviços de casa pode ser reinterpretado como “adultização” e alvo de censura.

As contradições do mensageiro

A hipocrisia do discurso fica ainda mais evidente quando se examina o histórico do próprio Felca. O influenciador, que agora clama por proteção às crianças, precisou apagar postagens de sua conta no X (antigo Twitter) após a viralização de seu vídeo.

Os prints salvos por internautas mostram conteúdo no mínimo questionável: uma dança sensual de uma menina que aparenta menos de 10 anos, postada sem qualquer pixelagem, e a foto de um menino nu, aparentando não mais de 8 anos, acompanhada da legenda “Meu público alvo”.

Independentemente da intenção das postagens, o fato é que Felca agora defende a criminalização exatamente do tipo de conteúdo que ele próprio publicou. A contradição é tão flagrante que dispensa maiores comentários.

A agenda por trás do pânico

Enquanto isso, no Congresso, tramita em regime de urgência um projeto de lei que promete “regular as redes sociais” e combater a “adultização”. Críticos apontam que a pressa é suspeita. O que se desenha é uma legislação propositalmente vaga, que permite interpretações amplas e, portanto, pode ser usada seletivamente contra adversários políticos, enquanto protege aliados.

O caso de Antonia Fontenelle é ilustrativo. A apresentadora denunciou Hytalo Santos há mais de um ano, mas seu vídeo foi removido pela Justiça da Paraíba sob ameaça de multa. A denúncia, feita por uma figura associada à direita, foi ignorada. Um ano depois, o mesmo material é requentado e ganha status de revelação.

Há ainda uma inversão perigosa no debate. A narrativa que se consolida em alguns setores da imprensa é a de que a pedofilia deve ser tratada como “doença”, não como crime. Se é doença, o pedófilo é vítima, e a sociedade precisa se adaptar para não “provocar” seus impulsos. A culpa, nessa lógica, recai sobre quem posta a foto, não sobre quem a deseja criminosamente.

O que está em jogo

Por trás do véu da proteção infantil, esconde-se uma disputa pelo controle da narrativa e, mais concretamente, pelo poder de censurar. As grandes redes de televisão, que por décadas lucraram com programas como o “Xou da Xuxa” — cuja capa de um dos discos mostra um bebê de fio dental —, agora veem na “regulamentação” uma forma de conter a concorrência das plataformas digitais.

O debate sobre a proteção de crianças e adolescentes é sério demais para ser tratado com a leviandade e a hipocrisia que têm marcado a discussão até agora. Enquanto investigados por exploração infantil são recebidos no palanque presidencial e influenciadores com histórico questionável lideram a cruzada moral, o que se protege não são as crianças, mas os interesses de quem quer controlar o que se vê e se diz no país.

A lição que fica é a de que, no Brasil de hoje, a “adultização” é um conceito elástico: serve para condenar opositores, mas nunca para constranger aliados. Enquanto isso, as crianças reais, aquelas que sofrem abusos concretos em lares desestruturados ou nas mãos de exploradores, continuam esperando por ações efetivas que vão além dos holofotes e das hashtags.

Por fim, ao recomendar a leitura do seu artigo, no “X”, Schmitt conclui, em tom de alerta: “A Lei Fecal tem o intuito de censurar o Brasil inteiro”.





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