Adesão a Trump não envolve covardia das Big Techs

Donald Trump apronta mais uma: forçar um colunista alérgico a Windows a apoiar Bill Gates. O homem que perdeu para Elon “X-Twitter” Musk o título de mais rico do mundo (hoje é o 13º) revela-se o único com espinha ereta diante da broligarquia tech na Casa Branca.

Em entrevista à revista Veja, Gates disse permanecer na centro-esquerda e ter ficado surpreso com a guinada à direita de pares no Vale do Silício. Esteve com Trump na quarta-feira (5) e defendeu a agência humanitária Usaid que o doge Musk quer demolir sob acusação de ser uma organização criminosa.

Os mais céticos suspeitarão que o biliardário Gates quer se destacar da confraria midiático-tecnológica para promover recente volume autobiográfico. É fato, contudo, que já defendeu tributação mais progressiva para ultrarricos e doou US$ 100 bilhões para sua fundação filantrópica.

No escopo da Gates Foundation estão o aquecimento global e a adaptação à mudança do clima, assim como promover educação e saúde; uma das prioridades é imunização. Todos temas na mira de Trump e do antivacina Robert Kennedy Jr.

Em contraste, Jeff Bezos, dono da Amazon e do jornal The Washington Post, suspendeu recursos de seu fundo de US$ 10 bilhões para clima e biodiversidade destinados à SBTi (sigla em inglês de Iniciativa Metas Baseadas em Ciência). Fica à míngua um sistema para monitorar se a descarbonização de empresas se alinha com os objetivos do Acordo de Paris.

Pior fez a empresa Alphabet, dona do Google. Engatou marcha a ré em políticas de diversidade, equidade e inclusão, acompanhando o desmonte politicamente incorreto em curso na administração federal dos EUA. Não parou por aí, entretanto.

Sua divisão de inteligência artificial (IA) até agora seguia regras que impediam o uso da ferramenta em armamentos ou sistemas de vigilância, no quesito “tecnologias que causam ou provavelmente causem dano generalizado”. O chefe da área, Demis Hassabis, revogou tudo sob o argumento de que a IA deve também proteger a segurança nacional.

Ainda antes de Trump assumir Mark Zuckerberg (Instagram, Facebook, WhatsApp) apressou-se a suspender a verificação independente de fatos e informações em suas plataformas. No Brasil, libertários desmiolados ou mal-intencionados comemoraram a “liberdade de expressão” a serviço de Bolsonaro e seus golpistas.

A adesão a Trump dos bilionários Big Tech não difere de donos do dinheiro grosso no Brasil embarcando na canoa bolsonarista. Sua desculpa era que o faziam para alçar um liberal ao comando da economia, ainda que doidivanas. Não é por menos que ora se encantam com Javier “Motosserra” Milei.

Nunca foi covardia, assim como não cabe falar em pusilanimidade de Musk, Bezos ou Zuckerberg. É oportunismo que chama, em defesa dos interesses de classe: desregulamentação a qualquer custo, estado mínimo administrado como empresa, constituições reduzidas a pó de traque, desigualdade rampante em prol “do fiscal”.

A mesma lógica leva Exxon, Shell, BP e Petrobras a defender o petróleo como fiador da transição energética, num mundo que se abisma na mudança climática queimando combustíveis fósseis. Não há lógica, só coerência, desígnio e impiedade.


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noticia por : UOL

28 de fevereiro de 2025 15:01